A neuropsicologia clínica, como disciplina que integra neurociência e comportamento humano, tem assistido a importantes avanços no entendimento dos mecanismos moleculares subjacentes às doenças neurodegenerativas. Recentemente, a via de sinalização cGAS-STING emergiu como um componente-chave na patogênese da Doença de Alzheimer (DA), revelando novas possibilidades para compreensão e intervenção clínica ( Kaur & Aran, 2025).
O que é a Via cGAS-STING?
A via cGAS-STING é um sistema de detecção de DNA citosólico, particularmente o DNA mitocondrial (mtDNA) liberado em decorrência da disfunção mitocondrial. Em condições normais, o DNA é restrito ao núcleo e à mitocôndria; sua presença no citosol ativa a enzima cGAS (cGMP-AMP synthase), que por sua vez ativa o adaptador STING (Stimulator of Interferon Genes), desencadeando uma resposta imune inata, predominantemente através da produção de interferon tipo I (IFN-I) (Decout et al., 2021).
A Via cGAS-STING na Patogênese da Doença de Alzheimer
Na DA, a disfunção mitocondrial e o estresse oxidativo levam à liberação de mtDNA no citosol, ativando a via cGAS-STING. Esta ativação gera inflamação estéril crônica, caracterizada pela liberação sustentada de citocinas inflamatórias e disfunção microglial (Heneka et al., 2015). A resposta inflamatória perpetuada compromete a depuração de placas beta-amiloides e facilita a propagação da taupatia, exacerbando o declínio cognitivo.
Implicações para a Neuropsicologia
Para profissionais da neuropsicologia, esses achados são altamente relevantes. Eles sugerem que processos de neuroinflamação subclínica podem preceder manifestações cognitivas detectáveis por testes tradicionais. Assim, a identificação precoce de biomarcadores relacionados à via cGAS-STING poderia se tornar uma ferramenta valiosa na predicção e monitoramento da progressão da DA, complementando avaliações neuropsicológicas clássicas.
Novas Estratégias Terapêuticas
A modulação da via cGAS-STING emerge como uma promissora estratégia terapêutica. Estudos pré-clínicos demonstram que o uso de inibidores específicos da cGAS ou do STING pode reduzir a neuroinflamação e melhorar a performance cognitiva em modelos animais de DA (Li & Chen, 2023).
Ensaios clínicos futuros visam avaliar se essas intervenções podem retardar ou mesmo interromper a progressão da doença em estágios iniciais. Isso poderia impactar significativamente o planejamento de reabilitação neuropsicológica, enfatizando abordagens mais preventivas e personalizadas.
O conhecimento sobre a via cGAS-STING amplia a compreensão dos mecanismos inflamatórios na DA e aponta para novas direções na prática neuropsicológica. A integração de biomarcadores moleculares com avaliações cognitivas pode otimizar diagnósticos, prognósticos e intervenções, fortalecendo a atuação clínica baseada em evidências.
Referências
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Kaur, A., & Aran, K. R. (2025). Unraveling the cGAS-STING pathway in Alzheimer’s disease: A new frontier in neuroinflammation and therapeutic strategies. Neuroscience, 573, 430–441. DOI: 10.1016/j.neuroscience.2025.04.001
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Decout, A., et al. (2021). The cGAS-STING pathway as a therapeutic target in inflammatory diseases. Nature Reviews Immunology, 21(9), 548-569.
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Heneka, M. T., et al. (2015). Neuroinflammation in Alzheimer’s disease. The Lancet Neurology, 14(4), 388-405.
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Li, X., & Chen, H. (2023). Targeting cGAS-STING signaling for the treatment of Alzheimer’s disease. Frontiers in Aging Neuroscience, 15, 1132457.